REGIONALISMO LINGUISTICO DO BRASIL
Por André de Jesus Oliveira
INTRODUÇÃO
O estudo do regionalismo linguístico no Brasil é uma área onde a Geografia e a Linguística se cruzam de forma profunda, em um campo conhecido como Geolingüística ou Dialetologia. É fato afirmar que há vários geógrafos e intelectuais que buscam contribuir para entender como o espaço geográfico brasileiro influencia a forma como falamos.
Milton Santos e a Rugosidade, Santos seja conhecido pela Geografia Crítica, seu conceito de rugosidades é essencial para entender o regionalismo linguístico. Aziz Ab’Saber e os Domínios Morfoclimáticos, focava na relação entre o homem e o meio físico.
O regionalismo é um forte marcador de identidade cultural. O modo de falar carrega a história, as migrações e as influências étnicas indígenas, africanas, europeias de cada região. Ao analisar as variações léxicas, fonéticas e sintáticas presentes nas diferentes regiões do Brasil, compreendendo a língua como um organismo vivo e mutável. De forma identificar as marcas históricas heranças indígenas, africanas e europeias em dialetos específicos ou no desmistificar o conceito de falar correto, combatendo o preconceito linguístico.
A língua é o principal veículo da cultura. Entender a forma regional da fala é entender a história da formação do povo brasileiro. Com muitas expressões regionais a regionalização linguística corre o risco de desaparecer devido à globalização e à padronização mediática. Registrá-las é preservar a memória nacional.
DESENVOLVIMENTO
Ao observar o regionalismo linguístico é visível, perceber o fenômeno sociocultural e gramatical que caracteriza a variação da língua em função da localização geográfica de seus falantes. Longe de ser um erro, ele representa a adaptabilidade da língua e às necessidades expressivas de diferentes comunidades.
A sustentação da Fundamentação Teórica faz necessária uma à base para o estudo do regionalismo que aponte para a Sociolinguística, campo consolidado por William Labov, no que tange ao combate ao preconceito linguístico no Brasil, a referência fundamental é Dante Lucchesi e, crucialmente, Magda Soares e Marcos Bagno.
“Conforme destaca Aguilera (1998, p. 23), a Geolingüística tem como objeto de estudo a variação da língua no espaço geográfico, buscando mapear as fronteiras dos falares".
Na teoria, o regionalismo se enquadra na Variação Diatópica, ou seja, na localização geográfica não se pode tratar a variação, a língua como uma unidade monolítica, mas um "polissistema" ou um conjunto de variedades que coexistem. Geolingüística verifica a distribuição espacial dos fatos linguísticos, cuja dimensão da variação regional não se limita apenas ao sotaque, ele se manifesta em diferentes níveis da língua:
Nível Fonético-Fonológico: Refere-se à pronúncia. Exemplos incluem o "r" retroflexo (caipira), o chiado do "s" no Rio de Janeiro ou a pronúncia das vogais abertas e fechadas em diferentes estados.
Nível Léxico-Semântico: é a variação no vocabulário. O mesmo objeto recebe nomes distintos dependendo da região. Exemplo: Mandioca, aipim e macaxeira; ou sacolé, dindim e geladinho.
Nível Morfossintático: Envolve a estrutura das frases e o uso de pronomes. Exemplo: O uso do "tu" com conjugação de terceira pessoa no Sul e Norte do Brasil, versus o uso predominante do "você" no Sudeste.
A tarefa fundamental da Geolingüística consiste em registrar a variação linguística no espaço, considerando que a língua não é um bloco monolítico, mas um sistema vivo que se molda de acordo com as coordenadas geográficas e socioculturais em que os falantes estão inseridos. (CARDOSO, 2010, p. 48).
É fato afirmar que há vários geógrafos e intelectuais que buscam contribuir para entender como o espaço geográfico brasileiro influencia a forma como falamos. Embora Milton Santos seja conhecido pela Geografia Crítica, seu conceito de rugosidades é essencial para entender o regionalismo linguístico. O espaço geográfico preserva marcas do passado heranças culturais, fluxos migratórios e isolamento geográfico que explicam por que certas regiões mantêm sotaques ou vocabulários específicos enquanto outras se modernizam ou padronizam a fala. E os Domínios Morfoclimáticos, Ab’Saber focava na relação entre o homem e o meio físico. Na perspectiva do regionalismo, o isolamento imposto por grandes barreiras naturais (como a Floresta Amazônica ou o Pantanal) foi o que permitiu a diferenciação linguística inicial no Brasil, criando "ilhas" de falares regional.
Segundo Cardoso (2010, p. 25), a Geolingüística, no seu fazer atual, busca conciliar o rigor do método tradicional com as aberturas proporcionadas pela modernidade teórica.
Principais Fatores Geográficos do Regionalismo: Fronteiras Naturais: Rios e serras que historicamente dificultaram a comunicação entre vilas. Ciclos Econômicos: O ciclo do ouro em Minas Gerais ou o ciclo da borracha na Amazônia criaram fluxos migratórios que "transportaram" e misturaram sotaques de diferentes partes do mundo. Urbanização: A concentração de pessoas em grandes metrópoles (nós geográficos) tende a "limar" sotaques locais em favor de uma fala mais urbana e midiática.
O atlas linguístico, enquanto produto final do fazer geolingüístico, não se limita a um conjunto de mapas; ele é, antes de tudo, um documento histórico e cultural que preserva a identidade de uma comunidade de fala em um determinado corte temporal e espacial, permitindo análises que vão além da dialetologia tradicional. (AGUILERA, 1998, p. 45).
No entanto, a fundamentação teórica moderna, especialmente em Marcos Bagno preconceito linguístico o que é, como se faz, alerta para a hierarquização dessas variantes. Frequentemente, as variantes de centros urbanos e de poder econômico são vistas como corretas, enquanto as variantes rurais ou de regiões periféricas são estigmatizadas. A ciência linguística defende a adequação linguística em vez do conceito binário de certe e errado.
CONCLUSÃO
O regionalismo linguístico é o reflexo da pluralidade de um povo. Compreendê-lo sob uma ótica teórica permite reconhecer que a língua é um organismo vivo, cujo dinamismo geográfico é essencial para a manutenção da comunicação e da herança cultural de uma nação. A escola e as instituições devem, portanto, promover a norma culta sem desmerecer as variantes regionais, tratando-as como patrimônio imaterial. De forma, identificar as marcas históricas heranças indígenas, africanas e europeias em dialetos específicos ou no desmistificar o conceito de falar correto, combatendo o preconceito linguístico.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AGUILERA, Vanderci de Andrade. Geolingüística no Brasil: trilhas e perspectivas. Londrina: Ed. UEL, 1998.
ALTENHOFEN, Cléo Vilson. Bilinguismo e contato de línguas. Canoas: Ed. ULBRA, 2002.
BAGNO, Marcos. Preconceito Linguístico: o que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 2015. (Essencial para discutir a recepção social dos regionalismos).
BORTONI-RICARDO, Stella Maris. Nós cheguemu na escola, e agora? Sociolinguística & Educação. São Paulo: Parábola, 2005. (Foca na transição entre o regional/rural e o padrão urbano).
BRANDÃO, Silvia Figueiredo. A geografia linguística do Brasil. São Paulo: Ática, 1991.
CARDOSO, Suzana Alice Marcelino. Geolingüística: binômio espaço-tempo. Salvador: UFBA, 2010.
CARDOSO, Suzana Alice Marcelino. Geolingüística: tradição e modernidade. São Paulo: Contexto, 2010. (Foco em atlas linguísticos e metodologia).
COELHO, Olga (Org.). Língua Portuguesa e Realidade Brasileira. Campinas: Pontes, 2014.
COMITÊ NACIONAL DO PROJETO ALiB. Atlas Linguístico do Brasil (ALiB). Londrina: Eduel, 2014. (A maior e mais atual referência de mapeamento da fala brasileira).
FERREIRA, Carlota; CARDOSO, Suzana Alice. A dialetologia no Brasil. São Paulo: Contexto, 1994.
ISQUERDO, Aparecida Negri; ALTESHOFEN, Cléo Vilson (Org.). Brasil dialetal: variadas variantes. Campo Grande: Ed. UFMS, 2001.
NASCENTES, Antenor. O linguajar Carioca. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1953. (Fundamental para entender a primeira divisão dialetal do Brasil).
NASCENTES, Antenor. O linguajar carioca. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1953. (Obra histórica fundamental para o estudo dos falares regional).